Carnaval sem renda

Sem bloco na rua e sem comida na mesa, trabalhadores informais são impactados com a falta do carnaval

O Brasil quer botar o bloco na rua, os trabalhadores informais querem comida na mesa.

13/02/2021 08h00Atualizado há 7 meses
Por: Redação
Fonte: Heloísa Gomes
Foto: Divulgação
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Vazio nos circuitos da folia, não tem bloco, não tem fantasia. Este é um carnaval atípico, sem brilho e sem renda para milhares de trabalhadores informais. Enquanto os baianos e turistas não vão colocar o bloco na rua e devem acompanhar de casa as séries de lives promovidas pela internet, os trabalhadores ambulantes não vão colocar a comida na mesa. Muitos profissionais aguardam o momento do carnaval para garantir uma renda extra que dê tranquilidade para administrar as despesas durante um período do ano. Em 2021 isso não será possível.

Entre diversas frentes de trabalho que se mobilizam neste período de festa, 60 mil trabalhadores ficarão sem essa oportunidade para desempenhar suas atividades, com isso cerca de R$90 milhões de reais deixarão de ser gerados em Salvador. 

“O cancelamento do Carnaval foi uma decisão acertada e pautada na necessidade de preservar vidas humanas, uma vez que estamos enfrentando uma pandemia mundial de uma doença altamente contagiosa. Portanto, não pouparemos esforços para vencer esta guerra e o cancelamento do Carnaval vai ao encontro das diversas ações de combate ao Coronavírus que o Estado da Bahia vem adotando desde o início da pandemia”, destaca o secretário estadual do Planejamento, Walter Pinheiro.

 

Apesar do momento pedir o isolamento social, nenhuma política pública de amparo aos trabalhadores informais foi aplicada. A Prefeitura de Salvador, de acordo com a Secretaria Municipal de Ordem Pública, que cuida do cadastramento dos ambulantes para que possam trabalhar durante a folia, disse que não há nenhum programa de auxílio financeiro para profissionais informais. O Governo do Estado também não apresentou um planejamento que garanta renda para este grupo. 

Na realização do carnaval 2020, os poderes estadual e municipal desembolsaram R$133 milhões de reais. Só o governo estadual contribuiu com R$73 milhões distribuídos entre os municípios, sendo Salvador o maior beneficiado com os recursos para realização de atividades setoriais de cultura, turismo, saúde, segurança pública, transporte, direitos humanos, entre outros. Segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), a Prefeitura Municipal de Salvador aportou R$60 milhões, dos quais R$20 milhões originários dos cofres públicos e o restante advindo de patrocínio. Neste ano nada será investido.

 

O cancelamento de uma festa tão grandiosa tem impacto imenso em toda uma cadeia produtiva, desde o setor de entretenimento, turismo e, também, o mercado informal. Joana Rocha é vendedora ambulante há 5 anos e vê o carnaval como uma ótima oportunidade de investimento para ter um maior lucro. “A gente que vende nossas mercadorias para sobreviver sabe bem o prejuízo que tá levando com o cancelamento do carnaval. Todo mundo espera por isso porque investimos pesado e sabemos do retorno. Estamos totalmente desamparados, não temos auxílio de ninguém. O que tem aqui em casa é menino chorando de fome e eu e meu marido desesperados sem saber o que fazer. O emprego a gente não acha e com essa pandemia nem vender a gente pode. Complicado demais”, desabafa.

 

Essa realidade cruel bate na porta de vários brasileiros, especialmente daqueles que não tem outra fonte de renda. “Eu só tenho minha cervejinha pra vender. Com isso de praia fechada, não pode andar na rua, cancelamento de festas e tudo mais, a gente fica sem alternativa. O que vamos fazer? A gente olha para a geladeira e tá vazia, olha pra conta no banco e tá zerada. Bate o desespero! Os políticos não estão nem aí. A gente chegou até a receber o auxílio emergencial, deu uma aliviada, mas acabou. O que será de nós?”, questiona Paulo Henrique, vendedor ambulante há 8 anos. 

 

O Governo Federal cancelou o auxílio emergencial, mas, pensando em reduzir a rejeição do presidente Jair Bolsonaro, mirando nas eleições de 2022, já começa a ser discutida possibilidade de renovação do pagamento emergencial. A ideia é que seja pago um valor decrescente, que comece com R$250,00 e passe para R$200 a partir de março e dure entre 3 a 4 meses. 

 

Enquanto isso, profissionais perdem postos formais de emprego, trabalhadores informais não conseguem desempenhar suas atividades e não contam com nenhum tipo de planejamento para suporte financeiro. A classe artística contou com a Lei Aldir Blanc, alguns setores voltaram a funcionar com restrições, mas vendedores ambulantes amargam a falta de cuidado do poder público e lidam com o desamparo. “É triste a gente não ter um pingo de dignidade na vida, sabe? Tem vezes que nem o do pão a gente tem. A sorte é que não tenho filhos, imagina o desespero de quem tem”, lamenta Vanessa Oliveira, vendedora ambulante. 

 

Como alternativa para amenizar estes impactos financeiros a Ambev lançou uma campanha para auxílio aos ambulantes que trabalham no carnaval. A iniciativa prevê cobertura para 20 mil ambulantes de todo o país, com valor máximo de R$255,00 de contribuição. Para isso, os vendedores devem se cadastrar na plataforma pelo site www.ajudeumambulante.com.br.

 

Com a aprovação do cadastro, o ambulante recebe o valor de R$150,00 e, também, um código para distribuir a consumidores, podendo receber R$5,00 a cada vez que o código for utilizado no Zé Delivery, com máximo de 20 usos por ambulante. Por fim, aqueles que fizerem um curso profissionalizante sobre consumo responsável de álcool disponível na própria plataforma vão receber R$ 5,00 extras

 

“Os ambulantes sempre estiveram com a gente e com os nossos consumidores nos Carnavais e esse ano não podia ser diferente. Estamos muito felizes de poder ajudar quem sempre fez parte do nosso ecossistema”, comenta Jean Jereissati.



A falta do carnaval nos tira a alegria, característica do povo baiano, nos tira o brilho e deixa um vazio na página da nossa história na representação da nossa cultura. A falta da movimentação da economia neste período do ano gera mais pobreza e mais fome. Sem bloco na rua não tem folia, sem gente pulando feito pipoca não tem dinheiro no bolso de quem precisa.

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