Tempestade de Ideias

Um filme total

Maior que o Oscar que concorre, este filme se faz grandioso como a vida

Tempestade de Ideias

Tempestade de IdeiasProfessor Juliano Levi aborda de tudo em textos semanais, leves e criativos.

08/04/2021 18h07Atualizado há 1 semana
Por: Juliano Levi
Fonte: Juliano Leví
A voz suprema do blues © Netflix
A voz suprema do blues © Netflix

A voz suprema do blues é. Posso anunciar esta frase como um axioma filosófico, no qual cada coisa do mundo encontra plenitude em sua singularidade. O filme tem uma essência que dispensa adjetivos, que lhe serviriam como acessórios, mas sem conseguir verdadeiramente qualificá-lo.

 

Meu Deus, o que foi isso que eu acabei de assistir.

 

Com direção de George C. Wolfe, baseado na peça de teatro homônima de August Wilson, A voz suprema do blues (Ma Rainey’s Black Bottom) tem uma duração curta para os padrões hollywoodianos: 94 minutos. Uma hora e meia. Elenco curto, não mais que dez personagens. Dava para montá-lo como uma peça num pequeno teatro de distrito, não fosse pelas dimensões titânicas do roteiro. Estou falando de um filme total. Um filme sobre a vida inteira. Sobre o ser negro, integralmente, sem deixar escapar uma fração das implicações históricas de sê-lo.

 

É uma obra-prima que me faz feliz em abordar num texto. É para isso que eu escrevo. Para tentar traduzir em palavras a locomotiva de sentimentos que me atropelou ao assistir este filme. Viola Davis com uma atuação que só ela pode entregar. Ninguém em Hollywood conseguiria. E Chadwick Boseman. Inacreditável. Estupendo. Vivo e vívido. Transita por incontáveis emoções, perfeitamente discerníveis em poucos segundos. Protagonista de cenas que deveriam ser gravadas e transmitidas em toda aula de teatro no mundo como um manual. Assim se interpreta. Menos que isso, é só tentativa.

 

Quis escrever imediatamente após a subida dos créditos, porque seria impossível fazê-lo depois. São tantas questões abordadas nos diálogos que fica até difícil dizer qual o gênero da obra. Se drama, comédia, biografia, eu não sei. Estão ali preocupações com a história da população negra, seu sofrimento, suas resistências. Derramadas nas trajetórias individuais de cada personagem, estão perguntas sobre os homens negros e suas masculinidades, auto-ódio, relações de gênero, religiosidade e filosofia. Cada cena é filmada com clareza e os sinais, sutis, do tópico que está sendo abordado despertam a reflexão crítica sem dificuldades. E ainda tem o delicioso blues que derrete os ouvidos. 

 

Assistam, por favor.

 

Não me deixem sozinho no mar de rosas e espinhos desta experiência cinematográfica completa. A voz suprema do blues é. Não vou usar adjetivos. Ele tem tudo porque fala sobre a vida. Tem tudo porque expõe o que é ser. Talvez assistindo, algumas pessoas até desenvolvam empatia e sintam arranhar na própria pele o significado da afrodescendência. 




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