Truculência

Repressão policial contra greve geral deixa 21 mortos e mais de 500 detidos na Colômbia

Manifestantes conseguiram frear reforma tributária, mas seguem nas ruas contra “pacotaço” e violência do Estado

04/05/2021 07h22Atualizado há 1 semana
Por: Redação
Fonte: Redação
População em greve é duramente reprimida por forças de segurança em Bogotá - Foto: Juan Barreto/AFP
População em greve é duramente reprimida por forças de segurança em Bogotá - Foto: Juan Barreto/AFP

Organizações sociais colombianas denunciam a continuidade da repressão das forças de segurança contra manifestantes em várias cidades do país. Desde o dia 28 de abril, quando a greve geral teve início, até 1º de maio, foram registrados 21 homicídios e 503 detenções em todo o território colombiano. O monitoramento é da organização Defender La Libertad.

Também foram relatados 10 casos de violência sexual contra mulheres cometidos por policiais, 42 casos de abusos contra defensores dos direitos humanos, 208 feridos e 18 manifestantes com lesões oculares.

Já de acordo com a plataforma de ativistas e defensores dos direitos humanos ONG Temblores, foram 940 os casos de violência policial documentados até o momento.

Os protestos são parte da greve geral conflagrada na semana passada contra a reforma tributária apresentada pelo governo Iván Duque, que pretendia aumentar em 19% impostos sobre serviços públicos, como gás e energia.

Ainda que o presidente tenha solicitado ao Congresso para retirar o projeto da pauta no último domingo (02), uma conquista da paralisação, os atos continuam pedindo a revogação completa da proposta e não somente a exclusão dos pontos mais polêmicos, conforme alegou que faria Duque.

Além de criticar a reforma fiscal, os ativistas protestam contra o chamado “pacotaço”, que também inclui mudanças e reformas nas leis do trabalho, na área da saúde e da previdência social. 

Outro ponto central da mobilização é a denúncia contra o assassinato de líderes sociais e a recorrente violência estatal contra a população colombiana, a exemplo do que acontece neste momento. 

As cidades de Palmira e Cali, no departamento de Valle del Cauca, são os maiores pontos de tensão com os militares. Os manifestantes locais chegaram a solicitar a presença de organizações de direitos humanos para verificar as violações cometidas pelo exército e pelo Esquadrão Móvel Anti-Riot (Esmad), uma espécie de BOPE do país.

Segundo Camila Tapiro, ativista do Coletivo Trapo Rojo, moradora de Cali, "em todo o país estão ocorrendo manifestações, mas também muita repressão, só não tem confronto onde não chegou a Esmad, que é a polícia antidistúrbios ou o Exército".  

De acordo com informações da Telesur, apenas da cidade de Palmira, onde foram relatadas as ações mais violentas, estima-se que mais de 30 pessoas estejam desaparecidas e pelo menos três foram mortas. Os agentes de segurança também teriam impedido o socorro aos ativistas feridos em Cali.

Episódios de repressão também aconteceram nas cidades de Popayán, Bogotá, Ibagué e Pereira.

Segundo a Colombia Informa, agência de comunicação popular, os atos continuam nesta segunda (03), apesar da militarização do país. Desde as primeiras horas da manhã, taxistas têm protestado em defesa de melhores condições de trabalho.

O Comitê Nacional de Greve na Colômbia anunciou uma grande mobilização para a próxima quarta-feira (05), para exigir do governo o cumprimento de uma série de exigências relacionadas à economia, sistemas de pensão, trabalho, saúde e educação. Os manifestantes também exigem o fim da militarização das cidades, o que vai contra o direito constitucional de protestar, e a restauração das liberdades democráticas.  

Segundo o comitê, os protestos continuarão até que o governo negocie as demandas apresentadas desde novembro do ano passado, quando ocorreram as primeiras manifestações de rejeição às políticas econômicas, sociais e ambientais da administração de Iván Duque.

 Vigília montada em Cali no domingo (2) em homenagem a mortos em protestos na Colômbia — Foto: Luis Robayo/AFP

 

Renúncia

Pressionado pelas manifestações nas ruas, o presidente Iván Duque ordenou no domingo a retirada da proposta que era debatida com ceticismo no Congresso, onde um amplo setor a rejeitava por punir a classe média e ser inadequada em meio à crise desencadeada pela pandemia de coronavírus.

Na tarde da última segunda-feira (3), o ministro da Fazenda da Colômbia, Alberto Carrasquilla, renunciou ao cargo. Ele será substituído pelo economista José Manuel Restrepo, atual ministro do Comércio, anunciou o presidente Duque no Twitter.

"Minha continuidade no governo dificultaria a construção rápida e eficiente dos consensos necessários" para executar uma nova proposta de reforma, informou Carrasquilla em um comunicado.

Apesar do anúncio, na manhã desta segunda-feira (3) já havia pessoas nas ruas e bloqueios de estradas em Bogotá. Os protestos também continuaram em outras grandes cidades do país, como Cali, Medellíin e Barranquilla

 

Reforma tributária

O governo apresentou a reforma tributária ao Congresso em 15 de abril como uma medida para financiar os gastos públicos na quarta maior economia da América Latina.

Desde a sexta-feira, o presidente Duque havia anunciado que reformularia o projeto. No domingo, detalhou os alcances da nova proposta, que excluirá o aumento do IVA sobre bens e serviços e a ampliação da base de contribuintes ao imposto de renda, os pontos mais controversos da "Lei de solidariedade sustentável".

O governo justifica a reforma dizendo que ela é necessária para "dar estabilidade fiscal ao país, proteger os programas sociais dos mais vulneráveis e gerar condições de crescimento depois dos efeitos provocados pela pandemia de Covid-19", segundo disse o presidente

As críticas vieram tanto da oposição política quanto de seus aliados, e o descontentamento logo se espalhou pelas ruas. Cada protesto foi seguido por tumultos e confrontos com as forças de segurança.

Com a reforma, o governo pretendia arrecadar cerca de 6,3 bilhões de dólares entre 2022 e 2031, para resgatar a economia.

Em 2020, o PIB da quarta maior economia da América Latina encolheu 6,8%: seu pior desempenho em meio século. O desemprego disparou para 16,8% em março e 3,5 milhões de pessoas caíram na pobreza em meio à crise econômica provocada pela pandemia.

Desde 6 de março de 2020, quase 2,9 milhões de pessoas contraíram o coronavírus no país, das quais 74.215 morreram.

 Com bandeiras da Colômbia, taxistas protestam contra reforma tributária nesta segunda (3) em Bogotá — Foto: Juan Barreto/AFP

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Salvador - BA
Atualizado às 21h26
26°
Nuvens esparsas Máxima: 28° - Mínima: 23°
27°

Sensação

9 km/h

Vento

65%

Umidade

Fonte: Climatempo
Municípios
Últimas notícias
Mais lidas