Tempestade de Ideias

A novidade era o máximo

A música de Gil e Paralamas é uma fábula que mexe com o coração

Tempestade de Ideias

Tempestade de IdeiasProfessor Juliano Levi aborda de tudo em textos semanais, leves e criativos.

03/06/2021 17h52Atualizado há 2 semanas
Por: Juliano Levi
Fonte: Juliano Leví
A sereia de Itapuã - escultura de Mário Cravo Jr.
A sereia de Itapuã - escultura de Mário Cravo Jr.

Vinheta do plantão jornalístico, todas as atenções se voltam para a tv. A jornalista, de terninho chique, inicia a manchete: "criatura mitológica é encontrada na praia de Ipanema! A sereia, um ser com metade do corpo humano e cauda de peixe, apareceu na areia no início desta manhã e chamou a atenção da população, que já se aglomera ao redor. Cientistas e autoridades estão se dirigindo ao local. Nosso helicóptero está mostrando imagens ao vivo da praia. Esta é uma descoberta que pode revolucionar os padrões da ciência. Seguiremos com mais informações ao longo da programação.”

 

Chocante, né? Quem imaginou esta situação foi Gilberto Gil, Felipe da Nóbrega, João Barone e Hermano Vianna na música A novidade, de 1994. É possível que todos vocês a conheçam e , talvez, sem prestar tanta atenção no conteúdo da letra. 

 

Eu já coloquei como título de um texto meu que o maior inimigo é a miséria. E, quando mais novo, assim que pude experimentar um pouco de pensamento crítico, essa música amassou meus sentimentos. Um acontecimento histórico, que poderia se converter em tantas maravilhas para a humanidade, acaba prematuramente, como um desastre de proporções globais. 

 

Imaginem comigo: a chegada da sereia à praia. O choque da grande revelação de um mistério do planeta. As primeiras tentativas de comunicação. Os estudos, a investigação do propósito da vinda daquela criatura que habitava apenas os sonhos e a ficção. A ciência se virando para incluí-la nos cadernos de biodiversidade. As implicações éticas; ela é humana? Tem consciência de si? Produz cultura? Um mundo inteiro de novidades, num corpo com os mais belos seios desnudos e a mais esplendorosa cauda reluzente. 

 

Até que a desigualdade, a miséria e a ignomínia são inseridas na equação. Antes mesmo que a espécie humana possa sequer formular as perguntas que poderiam ser feitas, pessoas em volta se jogam sobre o corpo da criatura e a despedaçam. Alguns por fome, para comer a cauda carnuda da criatura, outros por um acesso ridículo de perverso machismo, buscando o busto mitológico como satisfação aos seus impulsos mais bárbaros. E pronto, está pintado o quadro da tragédia. Resta a lamentação. A dor da esperança do que poderia ter sido e nos foi tirado sumariamente.

 

Poucas músicas me fazem chorar. Aqui está um exemplo. Choro pelo destino da sereia, que sequer tem voz na narrativa, pois encontra seu fim antes que possa fazer qualquer coisa. Choro pelo mundo, o terceiro, o nosso, o Brasil, porque é atingido por uma desigualdade tão aguda que desumaniza. Choro ao imaginar que um dia essa fantasia se realize e nós tenhamos que vivenciar tal horror. Sereias, se vocês existirem. Evitem as nossas praias. Ao menos por enquanto. Esperem essa onda passar. Venham quando formos melhores.

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