Tempestade de Ideias

Um carnaval sem lugar de fala

O filme da Netflix não faz jus ao título

Tempestade de Ideias

Tempestade de IdeiasProfessor Juliano Levi aborda de tudo em textos semanais, leves e criativos.

10/06/2021 18h21Atualizado há 5 dias
Por: Juliano Levi
Fonte: Juliano Leví
Carnaval © Netflix
Carnaval © Netflix

 

Nessa vida de escrever sobre o que emociona, sempre prefiro ser elogioso, buscar a crítica positiva. Entretanto, não dá para redigir panegíricos sobre tudo. Em alguns casos, considero necessário tocar em algumas feridas, principalmente se a obra de arte em questão trata de um tema de meu interesse. E com uma trajetória de dez anos de afoxé Filhos de Gandhy, posso dizer que entendo um pouquinho de carnaval.

 

Eu tenho um lugar de fala para tratar do filme da Netflix.

 

O conceito de lugar de fala, brilhantemente trabalhado por Djamila Ribeiro, pode ser aplicado, resumidamente, a grupos sociais que historicamente são excluídos e silenciados em nossa sociedade. É o relato aprofundado pela experiência e que possibilita uma perspectiva singular e enriquecida. Neste contexto, é triste notar que o filme Carnaval, da Netflix, com direção de Leandro Neri, não consegue sequer arranhar a superfície do que é a vivência da folia momesca em Salvador, para a vasta maioria dos foliões. É um carnaval dos riquíssimos, e não dos trabalhadores e foliões pipoca. A produção conta a história de uma influenciadora digital que, após um término de namoro, ganha a chance de, com tudo pago, curtir a primeira capital do Brasil no período mais efervescente do ano, com as amigas. (Oxe, eu não sei nem te dizer o que eu faria numa situação dessas! Não tenho nem roupa pra isso)

 

E eles fracassaram miseravelmente na proposta.

 

As personagens são estereotipadas. O elenco é recheado de artistas não-baianos e somos obrigados a ficar ouvindo um sotaque baianês que só existe na ficção. A geografia da nossa cidade é revirada do avesso com cenas em que as garotas se perdem na Barra e vão parar no Pelourinho. O circuito Osmar, o mais tradicional da folia, que inclui Campo Grande e Praça Castro Alves, sequer é citado e as garotas passam o tempo todo flutuando entre camarotes caríssimos e festinhas particulares elitistas. Ou seja, é um carnaval de Salvador pelas lentes de quem não entende nada do chão do carnaval de Salvador. Em algumas cenas senti até uma vergonha alheia. Como quando eles colocaram o personagem do ator Micael Borges em cima do trio para cantar uma musiquinha mixuruca, como se ele pudesse retratar a qualidade dos grandes artistas baianos, especialistas no encantamento das massas.

 

Não estou aqui afirmando que o filme é ruim por não ter artistas e produtores baianos. Este é apenas um sintoma. O filme é ruim porque não entrega uma história que valha a pena assistir. Não provoca nenhuma emoção. Talvez tenha faltado sensibilidade. O carnaval de Salvador é a maior festa popular do planeta e é um fenômeno cultural, que evidencia toda a beleza da nossa herança afro descendente, mas também escancara as desigualdades sociais. Há um universo de temáticas que poderiam ser abordadas. Não custava nada chamar o pessoal que realmente conhece outras perspectivas para uma consultoria criativa.

Minhas referências de filme sobre o tema continuam sendo Ó paí ó e Axé - canto do povo de um lugar, que inclusive é um documentário que me transporta espiritualmente para a festa. O filme da Netflix, infelizmente, sequer deveria ter este nome. Deste assunto eu entendo e tenho um lugar de fala com experiências interessantes.   

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