Tempestade de Ideias

Gramsci e o Beethoven negro

O documentário “Neojiba - Música que transforma” é só orgulho e emoção

Tempestade de Ideias

Tempestade de IdeiasProfessor Juliano Levi aborda de tudo em textos semanais, leves e criativos.

15/07/2021 17h50
Por: Juliano Levi
Fonte: Juliano Leví
Neojiba - Música que transforma (divulgação)
Neojiba - Música que transforma (divulgação)

 

“É só regar os lirios do gueto, que o Beethoven negro vem pra se mostrar.” Este é um dos versos marcantes da canção Brixton, Bronx ou Baixada, da banda O Rappa. E essa ideia saltou em minha cabeça enquanto eu assistia Neojiba - Música que transforma. O documentário dirigido por Sérgio Machado e Walker Torres chegou à Netflix e acompanha a trajetória dos músicos da orquestra numa turnê européia. NEOJIBA é um acrônimo para Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia e é um projeto do Governo do Estado da Bahia, criado pelo maestro Ricardo Castro. A iniciativa é voltada para a educação musical de jovens e crianças em situação de vulnerabilidade. Você não conhece? Deveria...A música, a arte, são motores poderosos de transformação social.

 

São 82 minutos de orgulho e emoção no documentário.

 

A música de orquestra talvez seja a manifestação artística mais facilmente associada à cultura erudita. Há uma tonelada de decoro, contrição e etiqueta relacionadas aos espetáculos desta natureza, como se aquele espaço fosse reservado apenas para um grupo seleto e exclusivo de membros da high society. O NEOJIBA é o símbolo da subversão desta ordem. O projeto possibilita que jovens negros e das regiões mais pobres da cidade tenham acesso e se mantenham num circuito artístico que era tido como inexpugnável para essas pessoas. O italiano Antonio Gramsci (Você não conhece? Deveria…), em seus Cadernos do Cárcere, defende a ascensão de um intelectual de novo tipo. Ele seria oriundo das classes trabalhadoras e portanto, diretamente comprometido com o desenvolvimento delas. É o conceito do intelectual orgânico. E não há como negar o impacto do NEOJIBA na vida, na família e na comunidade dos seus integrantes.

 

O documentário acompanha de perto a trajetória de Iure, o garoto violinista do bairro de Pirajá, em Salvador. Através dele, acompanhamos a organização e realização de uma turnê do NEOJIBA pela Europa, onde tocaram nos grandes salões e ao lado de impressionantes nomes da música clássica como a pianista Martha Argerich, a violinista Midori e o percussionista Colin Currie. É interessante como o nosso protagonista, posso até dizer nosso herói, é tímido. Você pouco ouve a sua voz ao longo de todo o documentário. Mas é com o arco e o violino que ele transmite sua mensagem. Em perfeita sincronia com os membros da orquestra, ele nos diz que a oportunidade é tudo que as pessoas precisam para florescer. Eu chorei. Vocês devem achar que eu verto lágrimas com facilidade, porque quase toda semana trago algo que me emociona. Mas, na verdade, é o contrário. Algo precisa tocar profundamente para fazer rios nos meus olhos. 

 

Iure é o Beethoven de Pirajá. E seus colegas de NEOJIBA são Bach, Vivaldi e Mozart dos mais diversos bairros de Salvador. Nossa gente é talentosa. Brilha quando conquista seu espaço. Assim como eu, Gramsci sentiria orgulho dessa florada de intelectuais orgânicos em formação. É só uma questão de oportunidade. É uma pena que nunca antes na história deste país alguém tenha pensado em ampliar o acesso dos mais pobres ao capital cultural e intelectual, né? 

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