Arquivo Vivo

Mergulho

Meus olhos cercavam todas as partes com entusiasmo e gratidão.

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Arquivo VivoSou Suellen, mãe de Enan, Pedagoga. Composta por perguntas, escrevo para me refazer. Costurando com letras os afetos e desafetos que me atravessam enquanto mulher e mãe, nessa jornada frenética. Busco reinventar minhas lógicas.

21/08/2021 13h12
Por: Redação
Fonte: Suellen Lima

Quero contar a história de um dos lugares mais lindos que já conheci. Era uma cachoeira, formada sob uma serra de pedra íngreme, a queda d'água vinha lá de cima, enchendo as bacias, que iam se formando ao longo da descida, com tamanhos e profundidades diferentes, estas também transbordavam criando uma nova queda.

As pessoas iam escolhendo os lugares mais abrigáveis, sombreados pelas árvores, mais planos e confortáveis pra se acomodar, fazíamos o mesmo, buscamos ficar próximas a uma dessas bacias,  deixamos nossas coisas e sentamos tanto esbaforidas como estarrecidas com a beleza daquele canto do mundo.

Meus olhos cercavam todas as partes com entusiasmo e gratidão. 

Avistei na parte inferior, um buraco, mais parecia o centro do mundo, um poço enorme, negro como a noite e profundo como o infinito. Ele se formou a partir das quedas menores e recebia toda água que descia desembestada pela serra, contornando, empoçando, se prendendo e libertando. 

Meus olhos fixos como imãs naquela escuridão, não me deixavam quieta, inauguravam uma sensação em minha alma, que descontrolada meu corpo, suava, sacudia , levando o coração até a boca. Eu sentia como se fosse parte do poço negro, vasto assustador. Algo em mim se identificava  e mergulhar se tornou o desejo mais temido e a única coisa que precisava viver ali.

Conhecia outras partes, experimentava, mas o poço não saia de dentro de mim. Como algo mais forte, que chama, abocanha.

O mergulho simbólico , trazia o desejo fatal de me atirar no breu. E se conseguisse fazer isso, meus monstros internos poderiam ser menos assustadores.

As pedras que forravam a serra, eram quentes, lisas e cheias de pequenos buracos, faziam a descida até o poço um desafio pra minhas pernas trêmulas. Então em gestos simples, lentos, com tomadas de respiração, meu coração apontou os olhos para o lago e fui descendo, acompanhada por minha própria coragem, toda borrada de medo. Repetia que podia confiar em meu corpo, me ajeitava e só dava o próximo passo quando sentia que estava na hora. Cheguei até a boca do poço e me ajeitei na pedra olhando para água mais escura que pude ver até então. O coração agora ganhava um silêncio contemplativo, mas vivo que nunca.

Então, já com o medo e a coragem se olhando nos olhos, me atirei de cabeça, sem pensar muito. Senti temores de todas as espécies, imaginava um mostro submerso, uma cobra gigante, pensava que algo poderia me sugar.  Fui buscando minha respiração que estava sem ritmo dentro do peito, tentando encontrar um compasso, virei o corpo pra cima e me entreguei a água negra, me deixei dissolver na imensidão de tudo, me dei pro tempo e pro breu, com inteireza. O coração acelerado vivo, fazia festa. Abri os olhos e olhando pra direção do céu vi uma coroa de árvores que circulava os redores, suas folhas formavam um abrigo sagrado e grandioso.  Voltei até a pedra e saí da água gelada , outra mulher, banhada de coragem. De coragem selvagem de viver.

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