Tempestade de Ideias

Longe vá, temor servil!

Você já viu o quadro de Pedro Américo. Mas já o observou?

Tempestade de Ideias

Tempestade de IdeiasProfessor Juliano Levi aborda de tudo em textos semanais, leves e criativos.

02/09/2021 19h32Atualizado há 2 semanas
Por: Juliano Levi
Fonte: Juliano Leví
Independência ou Morte - Pedro Américo
Independência ou Morte - Pedro Américo

O título da coluna é um dos versos do Hino da Independência do Brasil. Sim, eu sei cantar este hino. Isso graças à Escola Prática, onde estudei até a quarta série. O lema de lá era “educar para a cidadania” e foi o local onde aprendi não só este, mas outros hinos importantes como o da Bandeira e o da Independência da Bahia. Doces lembranças de amigos e professores daquele período… Minha mãe, que era diretora da escola, vai adorar este parágrafo. 

 

Foi lá, também, onde vi o quadro Independência ou Morte pela primeira vez.

 

O Juliano criança achava que o grito do Ipiranga tinha sido exatamente daquele jeito. A gente cresce e algumas fantasias se desfazem. É natural. Mas devo admitir que este quadro me acompanhou por toda infância, adolescência e hoje, na fase adulta, é impossível que eu atravesse um ano inteiro sem vê-lo num livro de História. Você também viu. Todo brasileiro que teve acesso a um livro da disciplina, viu. Ele é uma figurinha carimbada quando o assunto é Independência do Brasil, mas você, provavelmente, não parou sequer uma vez para observá-lo ou conhecer os seus detalhes.

 

Justiça seja feita: é um belo quadro. Pedro Américo concluiu sua produção em 1888, ou seja, mais de sessenta anos depois do acontecimento. Havia um esforço institucional da Coroa Brasileira para gerar marcos de identidade nacional e o pintor se ofereceu para contribuir. A tela, que tem enormes quatro metros de altura por sete de largura, não foi pintada aqui no Brasil, mas sim em Florença, na Itália. O estilo de traço do artista foi fortemente influenciado por correntes como o romantismo e o neoclassicismo. Ele tentou criar uma imagem que se tornasse referência e foi muito bem sucedido. Pedro Américo foi um prodígio da sua época e sua carreira foi marcante. O paraibano de Areias tinha apenas onze anos quando foi admitido na Academia Imperial de Belas Artes, do Rio de Janeiro. 

 

É um lindo quadro, produzido por um artista invejável. Mas, verdadeiramente, não desperta a minha paixão. Segundo Walter Benjamim, nada se compara à sensação de encontrar uma obra de arte pessoalmente. A tela está exposta no Museu Paulista e pretendo visitá-lo. Mas creio que não serei arrebatado. Todos esses anos aprendendo a história do meu país se converteram numa vacina contra o patriotismo chinfrim. Existem muitos outros eventos da nossa trajetória que me fazem orgulhoso. O Grito do Ipiranga não foi daquele jeito. A Independência do Brasil não tem a glória do traço de Pedro Américo. Um africano que fosse raptado para cá no dia 6 de Setembro de 1822, no dia 8 ainda seria um escravizado. Um liberal que aqui se instalasse no mesmo período, apenas se irritaria com a troca de um tirano por outro (verdadeiros liberais não simpatizam com tiranos). O pobre mascate da época apenas foi obrigado a beijar uma outra mão.

 

O quadro tem apenas um representante do povo: um vaqueiro, no canto esquerdo, que parece não entender nada do que está acontecendo ali. Talvez seja este um dos fatores que não me encantem nesta imagem. O povo sabe o que é a verdadeira liberdade. Quem faz meu coração vibrar de orgulho mesmo é a estátua de Maria Quitéria, heroína da Independência da Bahia. Quanto ao quadro Independência ou Morte: respeito, sim, mas paixão, não. 

 

Será que Jorge Luiz, colunista da nossa divertidíssima Maracangalha, prefere o vaqueiro ou Dom Pedro da pintura? Leia o texto dele desta sexta 03/08 para descobrir!

 

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