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Verdades dolorosas e necessárias

Após dois anos de adiamento, finalmente Marighella chegou aos cinemas brasileiros

25/11/2021 às 20h27 Atualizada em 25/11/2021 às 20h52
Por: Juliano Levi Fonte: Juliano Leví
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Marighella - Poster de divulgação
Marighella - Poster de divulgação

1,4 milhões de reais em faturamento no fim de semana de estreia. O filme brasileiro mais visto do ano de 2021. Marighella é um fenômeno de público e crítica que foi aplaudido de pé no Festival de Berlim. Idealizado para ser exibido nas salas do nosso país no Dia da Consciência Negra de 2019, a película dirigida por Wagner Moura só foi para as salas de cinema tupiniquins dois anos depois. 

 

E cada segundo da espera valeu a pena.

 

Já nos primeiros minutos, o filme apresenta seu cartão de visitas com um plano-sequência magistral que coloca o espectador no meio da ação frenética. Para quem não conhece, plano-sequência é uma técnica do audiovisual em que uma cena é filmada de uma vez só, sem cortes, com a câmera acompanhando os acontecimentos como se fosse parte da trama. Nem preciso dizer o quanto é difícil realizar este feito. Nenhum ator pode errar, nem mesmo os figurantes, ou a cena precisa ser refilmada desde o início.  Um primor, uma aula de direção cinematográfica. Daí pra frente o nosso coração brasileiro é colocado para experimentar uma gama gigantesca de emoções, que incluem medo, terror e esperança plena. A cenografia nos carrega de volta ao Brasil dos anos de chumbo e a trilha sonora conecta o passado ao presente com as contribuições de Mano Brown e o sempre pesado som de Chico Science. Cinema brasileiro no seu mais alto nível de expressão.

 

Seu Jorge é gigantesco e incomparável como Marighella. A figura do baiano disruptivo é encarnada de forma precisa, sem delírios heroicos. Uma humanização necessária a um personagem marcante na história do Brasil. Bruno Gagliasso aterroriza e choca no papel do Delegado Lúcio, uma figura recheada de fascismo e racismo que embrulha o estômago. É doloroso saber que gente assim existiu e ainda existe no Brasil.

 

Esta é uma história que escancara os horrores da ditadura militar. As cenas de violência, tortura e extermínio são colocadas na tela com todas as cores, com o objetivo de expor o regime em todos os seus detalhes crueis. É difícil até conceber que aqueles momentos são verossímeis, dado o grau de perversão demonstrado pelos agentes da ditadura. Seria ficção se nós não tivéssemos acesso aos fatos. A Comissão Nacional da Verdade, instituída em Maio de 2012, aprofundou a apuração sobre as violações aos Direitos Humanos cometidos pela Ditadura Militar do Brasil. Documentos foram analisados e investigações inteiras foram refeitas. O resultado foi um relatório entregue à sociedade com o máximo de detalhe e correção, evidenciando os responsáveis pela sangria operada pelas autoridades brasileiras no período. Lá estão nomes como o de Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do exército, torturador, homenageado pelo então deputado Jair Bolsonaro no seu voto a favor do Impeachment de Dilma Rousseff. Está também Sérgio Paranhos Fleury, delegado do DOPS, torturador, responsável pela operação que executou Carlos Marighella (A arte imita a vida, Bruno Gagliasso).

Nós temos o direito de saber o que realmente aconteceu. O filme Marighella usa a arte para denunciar um Brasil que nos envergonha e enoja, mas que não pode ser esquecido. Uma obra que, segundo a ANCINE, por motivos burocráticos, teve sua exibição adiada por dois anos. Verdades dolorosas e necessárias. Uma face da história do Brasil que nós não podemos esquecer, para nunca mais se repetir. Exerça seu direito de conhecer os fatos apurados. Leia os relatórios da Comissão Nacional da Verdade clicando AQUI.

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Sobre Professor Juliano Levi aborda de tudo em textos semanais, leves e criativos.
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