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Especiais Assédio moral

Assédio no ambiente de trabalho pode provocar danos emocionais irreversíveis; leia relatos

Negros, mulheres, homossexuais e trabalhadores que retornam ao trabalho com algum tipo de sequela são as principais vítimas

18/01/2021 às 10h44 Atualizada em 25/01/2021 às 21h09
Por: Redação
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Reprodução internet
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“O comportamento era a todo momento de intimidação, ridicularização e constrangimento”, essa descrição faz parte de um passado hostil que Pérola não consegue apagar até hoje. Os abusos praticados no ambiente corporativo são minimizados, seja pela alta performance do chefe opressor ou pelo relacionamento próximo com a diretoria da instituição. 

Romantizados em comédias, os chefes abusivos que apresentam comportamentos nocivos à saúde mental dos funcionários, na vida real, destroem as pessoas e deixam marcas emocionais severas. 

 

Conforme pesquisa elaborada pela Harvard Business School e Stanford University, que analisaram resultados de 200 estudos para compreender melhor os efeitos do estresse no ambiente de trabalho, descobriram que demandas excessivas de trabalho aumentam as possibilidades de os profissionais desenvolverem doenças físicas em 35%. A insegurança e o medo de perder o emprego são responsáveis por 50% dos prejuízos à saúde e todos esses danos têm um responsável: o chefe ruim.

“A equipe gestora procurava a todo momento  me colocar como alguém que não queria fazer nada na escola. Se esforçava para inviabilizar toda atividade executada por mim”, conta Pérola, educadora que sofreu abusos psicológicos e assédio moral por 6 anos em uma instituição de ensino em que trabalhou. Chefes abusivos repetem práticas como, menosprezar o trabalho da equipe ou de um funcionário em específico, perseguir o funcionário e exigir demandas pesadas, gritam em público com seus subordinados, entre outros comportamentos inadequados. 

 

Para se ter noção do quão prejudicial para o ambiente de trabalho é um chefe abusivo, pesquisa recente da Associação Americana de Psicologia aponta que 60% das pessoas prefeririam um novo chefe ao invés de um aumento salarial, o que demonstra que esse tipo de “liderança” nociva é mais comum do que se imagina. 75% dos trabalhadores ouvidos na pesquisa responderam que a pior e mais estressante parte no trabalho é o seu chefe direto.

 

“Eu precisei pedir demissão quando me dei conta que estava perdendo a minha dignidade. Meu chefe me ligava de madrugada para me pedir que anotasse coisas para ele, em outros momentos ele ligava, falava o que queria e batia o telefone sem esperar meu retorno. Fazia reuniões de equipe para questionar minha capacidade e já chegou a me gritar na frente de colegas. Vi que precisava de ajuda quando a cada vez que meu telefone tocava o meu corpo começava a tremer”, desabafa Amanda Lorena, publicitária. 

 

Amanda desenvolveu ansiedade e síndrome do pânico, precisou passar por tratamento psicológico e ainda realiza sessões de terapia para minimizar os danos emocionais causados por 3 anos convivendo em um ambiente tóxico de trabalho. Os danos psicológicos e emocionais causados pelo assédio moral podem ser muito graves, é o que diz a psicóloga Manoela Saraiva. “As pessoas se sentem humilhadas, diminuídas, envergonhadas e começam a questionar sua própria capacidade. Tudo isso pode piorar se a pessoa não tiver condições de sair desse ciclo violento”, conclui. 

 

Passaram-se anos, mas, apesar de ter feito tratamento psicológico, Pérola ainda sente os efeitos do longo período de abuso. “Até hoje quando falo meu coração aumenta muito os batimentos cardíacos. Na época era difícil para mim acordar e  ir (para o trabalho). Tive que fazer uso de remédio controlado, chorava todas as vezes que imaginava ter que ir ao trabalho.  Essa situação atingiu em cheio meu rendimento, a autoestima cai para zero”, desabafa.

 

A manutenção de chefes abusivos é possível por conta da estrutura corporativa favorável a essas práticas. Estes profissionais conseguem atingir bons rendimentos às custas da saúde física e mental de muitas pessoas e, por isso, as empresas permitem esse tipo de comportamento hostil. “Eu  calei, até que um dia depois de muito chorar comuniquei à ouvidoria que estava sendo vítima de assédio moral. Na época perdi todo ânimo de trabalhar. Vivia deitada, trancada no quarto e sob efeito de  tranquilizantes”, revela Pérola.

 

De acordo com a educadora, a Ouvidoria recebeu a reclamação e resolveu a questão, transferindo a profissional da unidade. “Minha história no lugar foi apagada. Toda vez que tinha homenagem aos professores da instituição, o meu nome não podia ser citado, muito menos as fotos em que eu aparecesse”, conta. A professora ainda acrescenta, “passei isso tudo sem direito algum à defesa. Tive que lutar para provar todo dia minha competência. Durou anos para eu retomar minha vida profissional normal. São feridas profundas, só sente quem passa”. 

 

Segundo o estudo “Assédio moral no trabalho, gênero, raça e poder”, publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, mulheres sofrem mais assédio moral do que os homens e 65% das entrevistadas relataram atos repetidos de violência psicológica, contra 35% dos homens. Negros, mulheres, homossexuais e trabalhadores que retornam ao trabalho com algum tipo de sequela são as principais vítimas. “Os principais danos causados, geralmente, são: psicopatológicos, como ansiedade, psicossomáticos, que são as tonturas, gastrite ou dor nas costas e assintomáticos, que impactam na vida privada, como álcool, drogas e isolamento social”, explica Manoela Saraiva.

Nos dois casos citados, ambas pediram demissão por não suportar as humilhações e exposições degradantes. Pérola e Amanda foram as personagens escolhidas para ilustrar a reportagem, mas chegaram à nossa redação diversos relatos dolorosos, assim como estes. “Eu tive a sorte de contar com o apoio de diversos colegas, apesar de sempre ter uma parcela que fica do lado do poder. Alguns colegas me deram apoio e, por isso, consegui suportar o tempo necessário para poder pedir demissão e seguir minha vida longe daquele inferno”, revela Amanda.

 

As vítimas geralmente não procuram a justiça, devido à burocracia e o desgaste emocional de enfrentar um processo judicial em que ela precisará provar os danos causados pelo seu agressor. A maioria prefere pedir demissão e buscar ajuda profissional para minimizar os prejuízos causados. 

 

“Talvez outras pessoas estejam, nesse momento, passando por uma situação como essa e não tem com quem desabafar. É uma guerra solitária, na qual te transformam em pouco tempo em uma pessoa louca, problemática, irresponsável e você vê ruir uma imagem de educadora que você demorou tempo para construir. No meu caso fui vítima de três coisas sérias: bullying, racismo e assédio moral”, denuncia Pérola.

 

Denúncias de assédio moral no ambiente corporativo podem ser feitas ao Ministério Público do Trabalho (MPT), Superintendências Regionais do Trabalho e sindicato da categoria. Para denunciar é importante  anotar, detalhadamente, todas as humilhações sofridas, especificando dia, mês, ano, hora, local/ setor, nome do(s) agressor(es), colegas que presenciaram, conteúdo da humilhação e demais informações relevantes. Grave, se possível, as conversas em que ocorrem agressões e busque auxílio com os colegas que testemunharam as ocorrências, faça contato com outras vítimas assediadas pelo mesmo agressor.

 

Outras opções de denúncia e busca de auxílio:

Comissão de Direitos Humanos da OAB;

Conselhos Regionais das diversas profissões;

Conselhos municipais e estaduais dos direitos;

Ministério Público Estadual;

 

Justiça do Trabalho.

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