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Feio, como deve ser

Guernica é uma lembrança de que não existe beleza em tirar vidas

03/03/2022 às 21h01 Atualizada em 05/05/2022 às 17h36
Por: Juliano Levi Fonte: Juliano Leví
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Guernica - Pablo Picasso (1937). Foto: Museu Reina Sofia
Guernica - Pablo Picasso (1937). Foto: Museu Reina Sofia

Lembro das intervenções dos meus pais, nas raríssimas ocasiões em que briguei com meu irmão, na infância. “Não interessa quem começou. Ambos estão errados porque a violência não resolve nada”. Era a lição que eu sempre ouvia. E assim cresci com a forte crença no diálogo como meio de resolução de conflitos. Há exatamente um mês, escrevi sobre um quadro de Salvador Dali e citei que a tensão na Ucrânia escalava (que você pode ler clicando AQUI).  Com a guerra se realizando, senti a urgência de fazer um novo diálogo das artes plásticas com a geopolítica. Hoje, voltaremos nossos olhos preocupados para “Guernica”, de Pablo Picasso. 

 

É um quadro feio. Porque a guerra é assim. 

 

É interessante a minha sensação de falta de ineditismo quando falo deste quadro. Acho que já o analisei tantas vezes em salas de aula e na vida acadêmica, que precisei revisar o meu arquivo de colunas para confirmar que nunca escrevi sobre ele. Pintado em 1937, “Guernica” se refere a cidade de mesmo nome, situada no País Basco, bombardeada pelos aviões alemães durante a Guerra Civil Espanhola. Os nazistas apoiaram o ditador espanhol Francisco Franco na tentativa de consolidar um governo totalitário no país e o ataque serviu como ensaio para as manobras da Segunda Guerra Mundial. O horror da chuva de fogo sobre a população foi representado numa enorme tela (3,5 m x 7,76m) pintada a óleo com forte característica cubista. A obra é um manifesto contra a guerra. 

 

O cinza prevalece na composição. A realidade parece fragmentada, tal como deve acontecer quando o céu desaba sobre as pessoas. Vemos pedaços de corpos humanos e de animais espalhados. Os rostos são carregados de dor e desespero. No lado esquerdo, uma mulher berra o sofrimento com um corpo infantil desfalecido nos braços. Tudo vai sendo colapsado na imagem, como se a mesma conseguisse carregar sons de explosões, choros e desmoronamentos. Até mesmo a lâmpada, um objeto inanimado, parece reagir com surpresa frente ao caos. O quadro é feio. Hediondo. Como o próprio Picasso afirmou, não foi feito para decorar apartamentos. É um lembrete poderoso de que não há lado certo e nem beleza numa guerra. O verdadeiro inimigo é a própria violência. Acreditar que tamanho morticínio pode ser a solução de problemas evidencia apenas uma deformação moral. 

 

Não existem cordeirinhos entre os líderes do conflito Rússia x Ucrânia. O fracasso da diplomacia é um fracasso de ambos. E também da OTAN, que permanece apostando na guerra e enviando armas para os ucranianos. Zelensky, ex-comediante, atual presidente da Ucrânia, usa seu povo como escudo enquanto monta a propaganda que desafia Putin a um ataque total. Putin, ex-espião da KGB e um reconhecido autocrata violento, é pressionado economicamente pelo ocidente enquanto alisa os botões de um dos maiores arsenais nucleares do planeta. Condeno a invasão. Condeno a gestão desastrosa dos líderes que transformam suas populações em estatísticas de mortos. O que não dá é para afirmar uma suposta neutralidade neste contexto. Ser neutro aí é ficar impassível diante da tragédia. 

 

Pablo Picasso pintou o feio. Foi genial ao fazê-lo. O quadro hoje está no Museu Nacional Centro de Arte - Reina Sofia, em Madrid, na Espanha. Mas está estampado como tapeçaria no Conselho de Segurança da ONU. Nesta semana, mais de cem representantes de países integrantes da organização boicotaram o discurso de Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia. O que é isso? Democracias que se recusam a ouvir? A guerra começou. Fracassamos. 

 

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Tempestade de Ideias - Juliano Levi
Tempestade de Ideias - Juliano Levi
Sobre Historiador, Jornalista e professor das redes pública municipal e estadual de ensino. Especialista em História da Arte e Gestão Escolar. Tem estudos na área de Educação Patrimonial e presta consultoria de projetos para a FENASDETRAN.
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