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A captura do instante

Uma foto que entrou para a história do Brasil

07/04/2022 às 20h24 Atualizada em 05/05/2022 às 17h35
Por: Juliano Levi Fonte: Juliano Leví
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Jânio Quadros em Uruguaiana, 21 de Abril de 1961. Foto: Erno Schneider
Jânio Quadros em Uruguaiana, 21 de Abril de 1961. Foto: Erno Schneider

No dia 8 de Março de 2022, faleceu, aos 87 anos, o fotojornalista Erno Schneider, responsável por um dos cliques mais icônicos da trajetória política do nosso país. A imagem venceu o Prêmio Esso de Fotografia de 1962. Há exatos sessenta anos, o Brasil vivia um momento político conturbado, sob a liderança de um presidente que tomava atitudes ilógicas e controversas. Jânio renunciou em Agosto de 1961, apenas alguns meses depois da foto. Hoje, 7 de Abril, dia do Jornalista, faremos esta justa homenagem. 

 

A sorte de estar na hora certa e a sensibilidade de capturá-la. 

 

É interessante como o estudo da História possibilita algumas lições. A campanha eleitoral que levou Jânio Quadros à presidência teve como principal elemento o combate à corrupção. Santinhos circularam pelo país com o desenho de uma vassourinha, que, segundo o candidato conservador, iria varrer a corrupção para fora do Brasil. Jânio também se apresentou como um administrador eficaz e defendia uma política externa independente para a nação. Jânio se colocou como um político livre de partidos, apesar de ter sido eleito numa coligação que tinha  a UDN, um partido tradicional da época, como legenda. 

 

Ao receber a faixa presidencial, as incoerências de Jânio se tornaram mais evidentes. Ele se comunicava, muitas vezes, com seus ministros usando bilhetinhos. Não divulgava uma agenda de compromissos em algumas oportunidades e aparecia de surpresa em repartições públicas, afirmando que estava lá para fiscalizar o trabalho dos servidores. Estabeleceu decretos que proibiam o uso de biquínis nas praias, maiôs nos concursos de Miss e corridas de cavalo em dias úteis. No plano econômico, criou uma política de austeridade que desvalorizou a moeda brasileira frente ao dólar e fez o preço dos combustíveis e alimentos dispararem. No campo político, denunciou membros de outros partidos e cultivou conflitos com a própria UDN. 

 

A foto de Erno Schneider é impressionante porque captura o espírito de um líder que parecia não saber para onde apontar. Sua gestão conduziu o Brasil ao caos e ninguém conseguia entender bem quais eram os objetivos daquele presidente. Ao mesmo tempo em que pregava princípios conservadores e moralistas, chegou a conceder uma alta condecoração ao revolucionário Che Guevara. A escritora Clarice Lispector, no seu sofisticado livro Água viva, de 1973, afirmou que “cada coisa tem um instante em que ela é.” O clique mágico do fotojornalista gaúcho parece ter alcançado o poder de se apossar de um instante e transformá-lo num verdadeiro resumo de uma época. Meses depois daquela foto, Jânio Quadros abriu mão do cargo, com a esperança de que o povo não aceitaria a renúncia e o reconduziria ao poder. Sua saída mergulhou o país numa onda reacionária que, após o também agitado mandato de João Goulart, culminaria com o golpe militar de 64. 

 

O merecidíssimo Prêmio Esso de 1962 é apenas um dos grandes feitos de Erno Schneider em sua carreira. Um jornalista exemplar e que simboliza bem os membros da profissão, comprometido com a verdade e precisão na informação. A História nos possibilita o aprendizado de lições interessantes e a foto tirada por Erno é um símbolo deste ensinamento. Políticos eleitos sobre a plataforma simplista de moralidade e combate à corrupção não apresentaram um programa claro de governo e apenas conduziram o país ao caos. Foi assim com Collor e é assim com Bolsonaro.

 

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Tempestade de Ideias - Juliano Levi
Tempestade de Ideias - Juliano Levi
Sobre Historiador, Jornalista e professor das redes pública municipal e estadual de ensino. Especialista em História da Arte e Gestão Escolar. Tem estudos na área de Educação Patrimonial e presta consultoria de projetos para a FENASDETRAN.
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