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Feriado para celebrar o quê, mesmo?

Como Tiradentes foi alçado ao posto de herói nacional.

21/04/2022 às 19h51 Atualizada em 05/05/2022 às 17h34
Por: Juliano Levi Fonte: Juliano Leví
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Tiradentes esquartejado - Pedro Américo. Oléo sobre tela. 1893
Tiradentes esquartejado - Pedro Américo. Oléo sobre tela. 1893

Tenho um apreço particular por explorar obras de arte que figuram em muitos livros de História. O contexto geral de uso da abordagem tradicional faz com que as aulas de História, em muitas escolas do nosso país, se tornem verdadeiras corridas atrás do conteúdo. O programa é sempre extenso, cheio de detalhes e, muitas vezes, infelizmente, os estudantes não tem a oportunidade de realizar análises das imagens que constam em seus próprios livros didáticos. 

 

O Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo, é um grande exemplo disso. 

 

O pintor paraibano é marcante na História da Arte brasileira por muitas outras obras, inclusive o quadro que retrata o Sete de Setembro (sobre o qual tratei neste texto). No capítulo do seu amado livro didático, quando o tópico era Inconfidência Mineira, certamente você, leitor, deve ter topado com a figura do  cadáver de Tiradentes hediondamente dividido em diversas partes. Talvez até o pintor tivesse o objetivo de emprestar um sentido trágico, de um herói martirizado na luta pela liberdade, mas para crianças e adolescentes em idade escolar, a pintura é quase um conto de terror. 

 

O contexto de construção de Tiradentes como um herói da nossa República é muito bem descrito pelo historiador José Murilo de Carvalho no seu excelente livro A formação das almas - o imaginário da república no Brasil. Lá é possível compreender que os responsáveis pelo movimento que encerrou a monarquia no nosso país desejavam cimentar a identidade nacional através de um conjunto de símbolos que fossem absorvidos pela população. Foi um processo, de certa forma, artificial. Os pensadores do regime recém proclamado fizeram tentativas de alçar os próprios líderes militares ao panteão tupiniquim, como Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Após o evidente fracasso, a escolha por Tiradentes, até então desconsiderado, foi realizada. A figura do inconfidente, historicamente cercada de controvérsias, seja acerca de seus traços étnicos ou papel real no movimento, foi transformada na iconografia em um símbolo quase religioso, de alguém que se entrega ao sofrimento para saudar os ideais da liberdade. 

 

Olhe bem para o quadro de Pedro Américo (apesar de reconhecer que é um pouco difícil permanecer olhando). A obra, de 1893, pintada em óleo sobre tela, tinha o sugestivo nome original de Tiradentes Supliciado. O traço renascentista, até com alguma carga de apelo sentimental, característico do romantismo nacionalista, é o fio condutor da imagem. Ao lado da cabeça decapitada de Tiradentes, repousa um crucifixo. A intenção de associação das figuras é clara. A forma como o tronco esquálido é posicionada também remonta o visual clássico do Cristo crucificado. A perna, para mim, é o componente mais horrendo da imagem. Pedro Américo parece ter se dedicado um pouco mais a esta parte, de modo que a desonra do corpo morto se tornasse mais evidente. 

 

Os arquitetos da suposta face do Brasil republicano eram fortemente ligados ao militarismo e forçaram a ideia de que este cara morreu em nome do alto ideal de liberdade. O papel de Tiradentes em nossa História ainda é alvo de intensos debates historiográficos. O símbolo do revolucionário iluminista que desafiou os poderosos, de fato, tem um certo charme, até mesmo para mim. E vejo com bons olhos a Inconfidência Mineira. Mas, com uma investigação mais apurada, é possível retirar o véu de alguns mitos criados intencionalmente. A Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Búzios, ocorreu no mesmo período, tinha ideais semelhantes, maior participação popular e negra, mas seus integrantes não foram exaltados desta forma pelos militares.

 

O fato de que a alta cúpula do exército brasileiro sabia que pessoas eram torturadas durante a ditadura pode não ter estragado a Páscoa de um certo general. Mas a ideia de que militares querem reescrever a nossa história conforme seus interesses, certamente estraga meu feriado de Tiradentes.

 

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Tempestade de Ideias - Juliano Levi
Tempestade de Ideias - Juliano Levi
Sobre Historiador, Jornalista e professor das redes pública municipal e estadual de ensino. Especialista em História da Arte e Gestão Escolar. Tem estudos na área de Educação Patrimonial e presta consultoria de projetos para a FENASDETRAN.
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